Cada minuto conta

Toda pessoa que quer ser altamente eficaz e se leva muito a sério corre o risco de ser escravizada pelo relógio quando se torna mãe. Você pesquisa muito o assunto, entrevista médicos e outras mães, lê livros e chega ao ponto de sentir um alívio (aquele das “inside jokes”) quando encontra outro ser humano que entende que o Pedrinho é um “bebê-livro”- um conhecimento só compartilhado por outra maluca que  leu aquela autora específica.

Durante a gravidez, esperava ansiosamente pelo boletim semanal do Babycenter que dizia como deveria estar sendo aquela semana. E ao ver uma informação que batia com a realidade eu praticamente gritava “Bingo!!”. Porque, no fundo, a gente só quer ser igual aos outros.

E quando chega perto do parto, a conta das semanas se torna diferente, você passa a contar os minutos. Primeiro com as contrações, que podem, ou não, ser somente de treinamento. Tive um domingo inteiro de contrações assim e fiquei psicoticamente monitorando tudo por um aplicativo chamado “contrações”. Comigo não tem como ser mais ou menos de 5 em 5 minutos pra mim. A conta precisa ser exata.

Como foi um alarme falso, voltamos a contar semanas. As mais longas da história e ainda mais penosas porque enfrentei o verão delicioso de 2015 com sensação térmica de 50 graus. Eu contava “38 semanas com sensação térmica de 48”. E Pedro não fazia questão nenhuma de enfrentar o calor que fazia no Rio.

Chegou um dia em que acordei com algumas contrações leves pela manhã. Fui à praia, almocei, fui fazer o milésimo ultrassom e ouvi que o bebê ainda levaria mais uns 10 dias pra nascer porque estava alto e havia muito líquido pra ele. E que ele seria do tipo que nasce com 42 semanas. Eu chorei. Porque estava exausta de tanto contar.

Em casa, no mesmo dia, as contrações voltaram. E voltei ao aplicativo. E voltei a perturbar loucamente o meu obstetra. Ele disse que seria trabalho de parto só quando fossem contrações de 5 em 5 minutos. Estavam de 20 em 20. Só que elas aceleraram e passaram pra 10 em 10 rapidamente. Muito doloridas. O médico me orientou a tentar dormir. Fui dormir rezando, claro. Pra Santa Terezinha e pro meu anjo da guarda pra manter o costume. E minhas preces foram atendidas! A bolsa estourou. Foi aquela alegria do “É hoje!” misturada com o prazer de quem sabia que tinha razão – adoro ter razão – e um sorriso no rosto de quem vê o Roletrando e descobre a palavra depois de apenas uma letra. (ok, agora o Silvio Santos mudou o programa de nome, mas sou antiga e falo como quiser).

Uma vez nascido o bebê, começou outra contagem. A da amamentação. Como não consigo saber quantos mililitros o Pedro mama, eu conto os minutos. Coisa de maluco mesmo: “começou 7h46 e parou 8h59 – peito esquerdo”. Tenho essas anotações até hoje. São seis semanas com todas as mamadas minuto a minuto. Anotei agora há pouco que ele mamou às 6h10 e parou às 6h25 – peito esquerdo.

E depois, quais serão os cálculos? Vou fazer um exercício de adivinhação – atividade preferida das mães ansiosas: acho que contarei os minutos que ele vai me deixar esperando em frente à escola enquanto fala com os amigos, os minutos que vai demorar no banho enquanto eu berro pra desligar o chuveiro, as horas que vai ficar usando a internet enquanto eu digo que ele não pode fazer isso porque vicia. E tem uma conta que nunca vai fechar porque eu sempre acharei que estou em desvantagem: cada minuto que ficarei longe dele porque somos dois seres diferentes. Como aguentar essa espera, não achei resposta satisfatória no Google apesar dessa pesquisa trazer 10.700.000 resultados. Até lá, torço para que a pediatra, o Babycenter e a Encantadora de Bebês segurem minha chatice.

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