Instamãe

  

Quando a gente aproveita a fila do mercado pra escrever pro blog quer dizer que o tempo anda mesmo escasso. E que a gente aprendeu a otimizar esse tempo. E não quer mais perder nenhum instante. Ah! E que estou no mercado minha gente! (Quem tem um recém nascido em casa sabe o que isso quer dizer!)

O fato é que preciso compartilhar o que acabo de ouvir. 

Atrás de mim na fila do caixa rápido, duas marombeiras conversam. Uma diz que está barriguda. A outra rebate na hora: “se uma barriguda de verdade te ouve dizendo isso vai dar na sua cara”. 

Não dei na cara. Nem encarei. Olhei foi pra baixo. Pra ela. Pra minha barriga – um resto de pele e gordura, resquícios de um parto recente sem tempo determinado para desaparecer da minha vida. 

Estou magra. Não visto roupa de mãe que amamenta. A blusa é preta mas não disfarça. Quem me olha vê uma magra barriguda. Não tenho desculpa. 

Olho pra cesta das saradas: alface, pão integral. Produtos diet. Na minha: Coca-cola. Bolo. Chocolate. Sorvete. Nutela! Coisas que nunca comprei de uma só vez. Mas sair pra fazer compras é uma experiência tão rara e libertadora para uma mãe que amamenta que a gente acaba perdendo a linha… Quem já teve um recém nascido em casa sabe o que quero dizer. 

O fato é que ando comendo como uma vaca. Aliás, como vaca comem as marombeiras! Eu como mesmo como uma mãe que amamenta e vive com fome e decidiu não cortar nada da alimentação porque passou a acreditar que nada do que eu deixar de comer vai mudar a vida do bebê. Nem a minha. E estou feliz da vida. 

Outro dia uma amiga sugeriu (claro que brincando) que eu me torne uma dessas musas fitness do Instagram. Eu postaria o dia a dia de uma mãe barriguda tentando, com suor, lágrimas e fotos inspiradoras, ficar sarada depois do parto. Quem sabe assim sairia do anonimato, viraria uma instacelebridade e ganharia uns trocados em troca?! E claro, uma barriga tanquinho! 

Uma pena! Não nasci pra isso. Pro exibicionismo. E pro exercício também, confesso. 

Mas decidi, recomendada por outra amiga, seguir um perfil de uma marombeira que conta a própria vida em posts e fotos cheias de pose no Instagram. Desse tipo musa fitness cheia de seguidoras invejosas. Passei a ser uma delas. Das seguidoras, claro. A ideia era dar inspiração pra eu perder os quilos que me faltam e enrijecer o que me resta. Mas a cada post que vejo só dá mesmo aquela inveja. Aquela que toda mãe de recém nascido ou qualquer uma que não se livrou dos quilos extras deve sentir. E como disse outra amiga: “Aff, não dou conta!” 

Antes que eu elimine esse perfil da minha timeline e da minha vida, lembro do bafafá que rendeu uma tal modelo americana que grávida de 9 meses tinha a barriga menor e mais definida que a minha em toda a vida.  Ela postava selfies na rede social em trajes miúdos e o mundo (materno, pelo menos) se estapeava em comentários prós e contras. Eu me abstive. Se ela estava saudável e o bebê também, palmas pra ela. As marombeiras do mercado também devem pensar como eu. E esse tal perfil é outro que também não to mais dando conta. 

Fica a dica: melhor não acreditar muito nestes perfis pseudo inspiradores. Se descobrirmos o que há por trás de tanta perfeição e alegria podemos nos decepcionar. 

Eu mesma outro dia postei uma foto da minha mão segurando a mão do meu bebê de três semanas. Quem já teve um recém nascido logo repara: as unhas estão feitas! E vermelhas! E lindas! “Vc não está um cacareco!”, disse uma amiga que pariu já há um tempo. Bem. Hoje são aquelas unhas que completam três semanas! 

E em vez de sonhar em ser musa fitness me satisfaço com um perfil de instamãe inspiradora. Aquela que fica em êxtase quando vai ao mercado, esnoba o corpão da marombeira e se acaba num pote de Nutela. Que se deleita com fotos de mãos e pés e boquinhas de recém nascido. E que não posta, nem com mil filtros, um único registro da barriga e das unhas cacareco. Se quiser a pura verdade, melhor nem me seguir. 
  








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Batom Vermelho

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Se eu tivesse que seduzir o maridão explicando como estou vestida nesse momento, não teria chance de sair do zero a zero. Eu estou aqui toda trabalhada na calça de moletom, camiseta desbeiçada e sutiã bege de amamentação. Ficou querendo ver mais? Que tal a unha descascada e cabelo no coque eterno (aquele enrolado que vc prende no alto da cabeça às 6h com uma piranha de plástico e só desmancha na hora de dormir ou nos dias em que vc lembra de lavar o cabelo)? O quadro da dor na moldura do sofrimento.

Nem preciso de outro parágrafo para que vocês entendam que estou me sentindo horrorosa. Só que acabei de encontrar a velha Larissa numa foto que acabei de ver e me animei.

Fui a uma festa esta semana e fiz o dever de casa – escova e maquiagem. O figurino ainda está limitado, então fui de (adivinhem?) calça e blusa pretas, mas nem ficou nada Maga Patalógica, tava direitinha. Meti uma jaqueta de couro vermelha por cima que deu uma super ajuda. E na tal festa, aceitei tirar foto – coisa que tenho evitado a todo custo. Eis que vi o resultado e gostei. Foi um lindo reencontro entre a Larissa Mondronga e a Larissa Divosa.

No dia seguinte, num passeio com uma prima super gata e minhas tias, a prima comprou um batom vermelho lindo cujo nome é sensacional “All fired up”. Elogiei. Minha tia resolveu me dar um igual. Me assustei, mas aceitei. Aceitei porque combina comigo, não com esse eu que está agora de sutiã bege, mas com meu outro eu.

Até a sacolinha dele é linda. E me caiu muito bem a cor. Agora preciso acordar a Larissa Divosa que resolveu dormir até tarde nesse domingão. Preciso deixar claro que ela está de licença do trabalho, mas não da vida. Vou apontar um batom vermelho na cara dela, dizer umas boas verdades e depois me oferecer pra lhe pagar um drink. Sem álcool.

E ainda tem o imposto de renda?!?!?!

Acabei de voltar da clínica de vacinação muito frustrada. O plano de saúde não autorizou a aplicação. Está chovendo, o que multiplica minha irritação já que tive que sair com um bebê num dia assim pra nada.

No caminho, lembro que preciso ir ao dentista porque uma restauração quebrou, apareceu uma bola no meu pé que está doendo muito e uma mancha no meu braço. Isso já me garante uma ida ao dentista (ou muitas…), ao ortopedista e ao dermatologista. Mais a chatice dos tratamentos que eles vão indicar. Sem contar com a dor na lombar que me acompanha fielmente há dois anos e não dá sinais de melhorar mesmo com fisioterapia semanal.

Fora isso, tenho que ir à academia e fazer dieta. Hoje fui, fiz 20 minutos de transport e meus joelhos estão doendo muito. E esse exercício nem vai fazer cócegas na gordura que se instalou no culote e disputa lugar com a celulite.

Claro que fora isso, tem a rotina do bebê – eu não tenho babá então sou eu quem dá banho, troca fralda (10 por dia, em média) e amamenta (de 3 em 3 horas – inclusive no meio da madrugada).

Então chego em casa, me jogo no sofá, confiro o horário da próxima mamada e me dou conta de uma coisa: ainda tem o imposto de renda! Pior: não tenho impressora em casa e terei que descobrir como vou conseguir os comprovantes que preciso – inclusive do plano de saúde que estragou meu começo de tarde. Sério, mãe de recém-nascido devia ter algum refresco das chatices da vida.

Sim, eu estou a fim de reclamar. E tenho direito. E sei que não há remédio além de resolver uma coisa de cada vez. E você deve estar pensando: por que ela não gasta o tempo resolvendo o que precisa ao invés de escrever pro blog? Porque fazer o que a gente gosta não é tarefa, é lazer. E escrever é o que mais adoro, além de desenhar de vez em quando e dançar na sala com meu fone de ouvido. Então é isso que farei: vou terminar esse texto, colocar meu fone e me acabar ao som de Ramones achando que She’s a Sensation foi feita pra mim.

Onde cabe o segundo filho

@hobyfotografia

Tenho uma confissão a fazer. Pouco antes de nascer o meu segundo filho me bateu uma certa preguiça. Preguiça desse enorme dorme acorda mama e faz cocô. E ponto. Desse choro que a gente precisa desvendar o motivo (e uma solução urgente!). Preguiça de lidar com um serzinho pequerrucho que pouco ou nada interage com a gente. Preguiça de recém nascido. Pronto falei. 

Estava eu com aquele barrigão. Curtindo muito aquele barrigão. Sabia que ia sentir saudades dele. Já sinto. 
Estava eu com aquele filho até então único, de dois anos, “falante iniciante”, fazendo graça. Uma graça. Que delicia ouvi-lo falar, sorrir e até mesmo chorar. Sim, às vezes, até mesmo chorar. 

Não me lembrava muito bem como era (gostoso) segurar um bebezinho tão levinho, tão delicado, tão indefeso, tão amoroso apesar de tão pequeno. Ou não tão pequeno assim.

Até que Felipe nasceu. Com 4kg. 52cm. E um jeitinho lindo de caçula querendo cuidado. Querendo amor. E eu amei. 

Amo amo amo sem fim. Em dobro. Multiplicado. Coube mais um. Cabe ele. Aliás, não cabe, transborda. E como diz a frase (brega) da moda (?!): é muito amor envolvido…

Hoje ele fez um mês. Planejei um parabéns. Um bolinho. Momentos de alegria. O parabéns e o bolo não couberam na rotina corrida do dia. Mas o dia foi cheio de momentos de alegria. E é aí que entra o segundo filho. Descartando o planejado.  Surpreendendo o previsível. Aumentando o cansaço, mas sumindo com a preguiça. (Aquela preguiça…)

Hoje ele fez um mês, está um quilo mais fofo e três centímetros mais lindo (baba mamãe!). Só não cabe mais nas fraldas e nas roupas de recém nascido. Sei que vou sentir saudades dele pequeno. Já sinto. 

O maior perigo dessa saudade é querer outro. Porque já sei que cabe. No coração. Não cabe no bolso nem no apê de dois quartos. Entao, não cabe não cabe não cabe.  


Ps: Não se assustem. É muita ocitocina envolvida. Estou até doando as roupas que já não cabem. Parei no segundo, mesmo. Terceiro? Preguiça! E não cabe não cabe não cabe! 

Meu exército tem poder

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Que coisas aprendemos a fazer por causa da chegada de um bebê? Que medos enfrentamos por causa dele?

A lista de novas habilidades é interessante. Distinguir um choro de fome do choro da cólica, escapar de jato de xixi ao trocar fralda… Mas isso é técnica. Quero saber que medo fazia você tremer e agora não faz mais?

O meu desafio foi enfrentar o medo de ser mãe. Quer dizer, o medo de não ser uma mãe perfeita.

Apesar de não ter absolutamente nada que indicasse que eu seria uma mãe meia-boca, eu achava que ia mandar mal. Aquele pensamento catastrófico de gente neurótica mesmo. Imaginava meu filho se escondendo de vergonha de mim na porta da escola. Imaginava as outras mães olhando pra mim com profundo desprezo e um outro tanto de bobagens: ele me chamando de gorda e dizendo que queria ter nascido em outra família. Tinha medo de não ser mais uma profissional de alto desempenho depois de ter filho. De ficar feia. (Tô na dúvida se isso é neurose ou paranoia).

Mesmo assim, engravidei. Não podia me permitir ser menor que meu medo. Coloquei aquele temor numa caixinha bem fechada e fui adiante.

Sem falsa modéstia, estou me saindo relativamente bem nas tarefas cotidianas. Claro que, como Pedro ainda não fala, eu levo uma certa vantagem porque ele ainda não pode reclamar. Se eu faço bobagem, o segredinho é só nosso. E estou bem mais confortável nesse novo papel. Até chego a pensar que se o meu filho escolheu vir pra mim é porque sabia no que estava se metendo.

Sobre ser uma profissional pior, não sei como será o retorno ao trabalho e vou deixar pra pensar nisso depois. E sobre ficar feia, eu só ouço que fiquei melhor depois de ter filho (mais um ponto pro pai que escolhi pro meu filho).

A caixinha ainda está comigo e chave vive pendurada no meu pescoço pra que eu não esqueça do que está ali dentro. De vez em quando, ouço o medo espernear pedindo pra sair. Busco ajuda. Aquele conforto da família, dos amigos e de todo mundo que vai me dizer que não preciso me cobrar tanto. Também me socorro nas palavras da pediatra que diz que meu pequeno vai muito bem, obrigada. Na experiência da Rosana, que trabalha aqui em casa, e tem um bebê de 10 meses. No colo amoroso que eu recebo do Tomás. Nas inúmeras vezes que minha mãe e minha sogra se oferecem e vêm para ajudar. Nas orações que minhas avós rezam por nós. Na ioga, na terapia, nas conversas com as amigas…

Porque mesmo que a gente nasça e morra sozinho, é muito bom ter um exército por perto para manter a tampa da caixa fechada. E meu exército tem poder!

#futuro.com.br

A notícia da gravidez deixa a família radiante. Os meses vão passando, todas as providências vão sendo tomadas, quartinho arrumado, roupas compradas, lavadas e passadas. Facebook, Instagram, Twitter pro moleque feitos, ah, e não menos importante: definida a  hashtag para compartilhar as fotos do bebê.

Oi?

Sim, um bebê que nasce em 2015, no meio de tanta tecnologia, redes sociais em alta, compartilhamento de fotos bombando… como não garantir que o nome do bebê seja registrado também no mundo virtual? Como não ter uma hashtag para quem for na maternidade postar aquelas fotos do recém-nascido? Uma pesquisa inglesa (sempre esses pesquisadores ingleses) mostrou que lá no Reino Unido, 57% dos bebês aparecem na internet em alguma foto antes da primeira hora de vida.

Para algumas famílias, a identidade virtual do pequeno é tão importante quanto a real. Afinal, como é que vamos ter acesso a todas as fotos dele postadas na internet?

Isso me deixa um pouco preocupada… não ter o controle sobre quem posta fotos dos meus filhos e até incentivar isso criando uma hashtag, me tiraria o sono da noite – sono esse que uma mãe de recém-nascido já não tem mesmo.

Essa semana, o cara preso por sequestrar uma criança disse para os jornalistas que achou todas as informações sobre aquela família no Facebook. Palavras dele, mais ou menos: “estava tudo no Facebook. Até foto de dentro da casa dele tinha lá”. Fiquei apavorada e fui garantir que as minhas redes sociais estavam mesmo abertas apenas para quem eu autorizei.

A tecnologia está aí pra ser usada. Não sou contra de forma alguma em mostrar os filhos na internet. Muito pelo contrário, no meu Instagram e Facebook está cheio de fotos deles! Mas não é qualquer um que vê.

Atire a primeira pedra quem nunca publicou fotos do filho uma vezinha. Bem, segundo uma outra pesquisa – da AVG, empresa de antivírus -, 20% dos pais com filhos entre 0 e 5 anos  estão, neste momento, atirando a primeira pedra em mim por nunca terem compartilhado nenhumazinha foto dos filhos. Mas são 20%, vai…. nós mortais, ou 80% de nós, não resistem às fofuras deles. É mais forte que a gente. Mas a gente precisa saber que uma conta no Instagram para o seu filho não é a mesma coisa que o álbum da família que você guarda e mostra para quem te visita em casa. E também não é a mesma coisa que você postar fotos dos filhos na sua rede, para amigos seus.

Onde vamos parar, eu não sei. No mínimo, vamos ter daqui a uns meses domínios de e-mail no limbo, sendo guardados para um futuro desconhecido, em que até o email pode se tornar obsoleto.

Num prognóstico mais radical, teremos filhos rebeldes questionando as mães sobre o teor das fotos deles publicadas no Instagram deles mesmos.

E namoradas fuxicando as redes sociais dos namorados para descobrir se eles nasceram de cesárea ou parto normal. Se mamaram no peito ou na mamadeira, se ficavam na creche ou com a avó.

Entre peitos e orelhas 

Nascem quíntuplos.

Mãe de 13 filhos espera quadrigêmeos – aos 65 anos!

Sentimentos múltiplos me sobem à cabeça ao ler essas notícias.

A princípio desejo que os bebês cresçam saudáveis e que as mães se recuperem logo. Do susto, com certeza. Depois, penso em como vai ser a rotina dessas famílias. Rotina?

Não é à toa que escrevo sobre notícias de ontem. Um filho de dois anos e um de vinte dias, os dois resfriados, me bastam para ter uma pequena ideia do que é a rotina de cuidar de dois – ou mais – ao mesmo tempo.

Tenho vivido uma maratona. De revezamento.

Numa hora sou peito. O pequeno mama quando quer e bem entende e por enquanto estou respeitando seu tempo.

Noutra hora sou orelha. O maior decidiu ainda pequeno que seu objeto de transição não seria nenhum paninho, soninho, bichinho, nadinha que pudesse me substituir nas horas de sono, manha e chamego. É a minha orelha que ele segura, agarra, aperta e, que delícia, faz um carinho que me põe pra dormir como um anjinho…

Quando o pequeno para de mamar, o maior já está de braços esticados tentando me alcançar. Isso quando já não alcançou. Aí não é revezamento. É contorcionismo mesmo.

Tento ser algo mais que peitos e orelhas, eu juro. Mas no momento, confesso, não almejo ir muito além de uma pausa para o lanche.

O cocô feliz e a girafa da tia Renata

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Eu sempre me perguntei por que as mães que não tinham outra conversa além de cocô. Sempre tive pavor do assunto e acho que quem esquece de dar descarga deve ser multado e preso. Admiro casais que completam bodas de ouro sem nem saber que o outro vai ao banheiro (o cúmulo do luxo então é quando cada um tem o seu banheiro – ryquezza e poder!). E achava incompreensível ter uma figura de um cocô feliz no teclado do Emoji.

Aí, vem o primeiro filho e a resposta. Pelas minhas contas, o cocô responde por um terço das principais atividades do seu bebê, já que as demais são dormir e mamar. E falando em mamar, tudo que entra tem que sair.

E cá estou eu, que odeio o tema, escrevendo sobre cocô enquanto torço para ouvir um sonoro pum – a certeza de que a cólica do Pedro vai passar.

E como boa mãe, agora falo muito sobre cocô, tanto que já sei discutir sobre a cor dele.

A querida pediatra do meu filho, doutora Renata Lerner, me explicou na primeira consulta que o cocô ia mudar de cor até que ficasse amarelo como a girafa pintada no consultório dela. Sempre achei que cor de cocô era até algo definido na escala Pantone, mas descobri que o cocô perfeito para um recém-nascido é amarelo feito aquela simpática figura na parede. Eu adoro parâmetros e sempre vibro quando troco a fralda e vejo que estamos super dentro do padrão da girafa da tia Renata.

Hoje não estamos num dia ideal, mas já tivemos piores.

Tudo ia muito bem até Pedro ter sua primeira prisão de ventre. Dois dias e meio sem sujar a fraldinha. Chorando e se contorcendo muito. Pense num sujeito que tem apenas 3 quilos morrendo de dor. Sério, um terror. Nunca torci tanto por um cocô. E quando veio, finalmente, entendi aquele emoticon do cocô feliz. Mas eu gostaria de sugerir que tivessem uma versão amarelo-girafa-da-tia-Renata. Quem sabe é a nova Marsala pra 2016?

Sobre a morte

Nosso cachorro morreu.

Meu filho não percebeu de cara, entre outros motivos, por que o cachorro frequentemente vinha ficando uns dias no hospital, e também porque nós mesmos ficamos alguns dias fora de casa, viajando, antes dele morrer.  Bem, como explicar a uma criança de 3 anos sobre a morte? Se às vezes nem eu entendo…

O menino que fez o funeral do peixinho morto dele me deu uma noção de como as crianças entendem a morte: exatamente como os adultos, com tristeza e luto.

Eu achei que o Tomás não fosse se preocupar com o Frodo. Mas as crianças sacam tudo. Passou um tempo e ele perguntou onde estava o cachorro. Pensamos, pensamos e resolvemos contar que ele tinha ido morar com a mãe dele, porque estava muito doente, e ela ia cuidar dele.

Featured imageEle engoliu por um tempo, mas depois voltou a perguntar. E de novo e de novo. E queria saber quando ele ia voltar pra nossa casa. Ele precisava de um “fim” para o cachorrinho que conviveu com ele por três anos.

Percebi que a história da mãe não convenceu ele. Faz todo sentido, afinal, na cabeça dele, as mães sabem cuidar, e ele ficaria curado depois dessa temporada com ela. A morte precisa ser explicada, a criança precisa entender que aquele ser não volta mais.

Mudei a história, e agora, a versão é que ele foi morar com a mãe (pra ser coerente), mas depois acabou ficando mais doente, e o papai do céu resolveu transformar ele em estrelinha. Pronto, eis o fim de que ele precisava. Ele não tocou mais no assunto. A foto do cachorro continua pendurada na nossa parede e a lembrança no coração de todo mundo de casa, tenho certeza.

Carne viva

A nossa querida amiga Juliana Ganz resolveu compartilhar lindamente o momento dela:

Featured imageQuando meu filho tinha mais ou menos um mês, eu estava deitada na cama ao lado do meu marido e disse pra ele: “eu não estou vivendo um momento mágico.” Vi nos olhos dele a decepção. Como podia eu estar dizendo aquilo depois de cinco anos e meio tentando engravidar e fazendo disso a missão das nossas vidas?

Pois é. Mas eu não estava vivendo um momento mágico. Longe disso, muito longe disso. Eu vivia um imenso vazio e ao mesmo tempo eu sentia um turbilhão dentro de mim. Emoções das mais contraditórias. A sensação de conquista misturada com a derrota. A alegria e a melancolia. A vontade de estar acordada e o desejo de dormir pra sempre.

Eu não queria fazer nada.

Eu tinha PÂNICO de tudo. Não o medo de não cuidar do bebê ou de deixá-lo cair. Mas o pânico de não conseguir mais viver a minha vida. Só viver a dele e nunca mais ser eu mesma. De não amá-lo o suficiente pra valer tanto sacrifício e tanta doação.

Onde estava meu lugar naquilo tudo? Eu não encontrava.

Tinha pânico de faltar papel higiênico e eu não ter tempo de comprar. Pânico de não voltar a ter prazer em comer nunca mais. Pânico de ter que trabalhar no feriado e não ter com quem deixar o meu filho. Pânico de não conseguir cuidar dos meus pais doentes. Pânico de ficar sozinha com ele.

Desamparo. Solidão. Tristeza. Eu olhava pro meu filho e me perguntava: o que eu fui fazer da minha vida?

Meu Deus, aquilo era ser mãe? Sim, era também! Pra mim, pelo menos. Aprendi com o tempo que não há fórmula pra ser mãe. Nem romantismo. A gente é a mãe que a gente é, da forma como a maternidade nos chega. E pra mim o começo não foi fácil. Foi assustador.

Uma amiga muito íntima que já tinha um filho de dois anos me disse: “a gente troca de pele.” Ela estava certa. Só que no meu caso, a pele velha saiu e a nova demorou demais a revestir meu corpo. Eu estava em carne viva.

Encarei o diagnóstico da depressão pós-parto e busquei ajuda. Profissional, das amigas (santas amigas!), do meu marido (que tirou férias pra cuidar de mim e sem ele nada seria possível) e dos remédios.

Tirei a culpa de dentro de mim. Essa foi a parte fundamental: eu não tinha que sofrer duas vezes. Sofrer com todas aquelas sensações de falta de ar, taquicardia, insônia, pânico e ansiedade e ainda sofrer de novo porque eu não podia ser uma mãe que sofria.

Aos poucos, fui percebendo que não precisava me anular. Descobri que não faço o tipo de mãe que se sacrifica e acha que isso é o significado da maternidade. Aprendi que o melhor que posso dar ao meu filho é a minha alegria de viver. E isso inclui cuidar de mim.

A pele nova chegou alguns meses depois do parto e hoje encobre meu corpo plenamente. Agora com um pequeno retoque: uma tatuagem de balão na nuca que marca a presença do meu filho na minha existência. O balão que vai carregá-lo pra sempre dentro de mim.

Essa pele nova me transformou numa mulher com mais energia, mais força, mais vitalidade. Olhar pro meu filho é ver a realização de um sonho. É perceber no olhar dele pra mim uma admiração, um encantamento. A recíproca é verdadeira, meu filho.

O que eu fui fazer da minha vida? Hoje já sei: um bebê risonho, feliz e DELICIOSO. Que é a mais pura alegria.