Carne viva

A nossa querida amiga Juliana Ganz resolveu compartilhar lindamente o momento dela:

Featured imageQuando meu filho tinha mais ou menos um mês, eu estava deitada na cama ao lado do meu marido e disse pra ele: “eu não estou vivendo um momento mágico.” Vi nos olhos dele a decepção. Como podia eu estar dizendo aquilo depois de cinco anos e meio tentando engravidar e fazendo disso a missão das nossas vidas?

Pois é. Mas eu não estava vivendo um momento mágico. Longe disso, muito longe disso. Eu vivia um imenso vazio e ao mesmo tempo eu sentia um turbilhão dentro de mim. Emoções das mais contraditórias. A sensação de conquista misturada com a derrota. A alegria e a melancolia. A vontade de estar acordada e o desejo de dormir pra sempre.

Eu não queria fazer nada.

Eu tinha PÂNICO de tudo. Não o medo de não cuidar do bebê ou de deixá-lo cair. Mas o pânico de não conseguir mais viver a minha vida. Só viver a dele e nunca mais ser eu mesma. De não amá-lo o suficiente pra valer tanto sacrifício e tanta doação.

Onde estava meu lugar naquilo tudo? Eu não encontrava.

Tinha pânico de faltar papel higiênico e eu não ter tempo de comprar. Pânico de não voltar a ter prazer em comer nunca mais. Pânico de ter que trabalhar no feriado e não ter com quem deixar o meu filho. Pânico de não conseguir cuidar dos meus pais doentes. Pânico de ficar sozinha com ele.

Desamparo. Solidão. Tristeza. Eu olhava pro meu filho e me perguntava: o que eu fui fazer da minha vida?

Meu Deus, aquilo era ser mãe? Sim, era também! Pra mim, pelo menos. Aprendi com o tempo que não há fórmula pra ser mãe. Nem romantismo. A gente é a mãe que a gente é, da forma como a maternidade nos chega. E pra mim o começo não foi fácil. Foi assustador.

Uma amiga muito íntima que já tinha um filho de dois anos me disse: “a gente troca de pele.” Ela estava certa. Só que no meu caso, a pele velha saiu e a nova demorou demais a revestir meu corpo. Eu estava em carne viva.

Encarei o diagnóstico da depressão pós-parto e busquei ajuda. Profissional, das amigas (santas amigas!), do meu marido (que tirou férias pra cuidar de mim e sem ele nada seria possível) e dos remédios.

Tirei a culpa de dentro de mim. Essa foi a parte fundamental: eu não tinha que sofrer duas vezes. Sofrer com todas aquelas sensações de falta de ar, taquicardia, insônia, pânico e ansiedade e ainda sofrer de novo porque eu não podia ser uma mãe que sofria.

Aos poucos, fui percebendo que não precisava me anular. Descobri que não faço o tipo de mãe que se sacrifica e acha que isso é o significado da maternidade. Aprendi que o melhor que posso dar ao meu filho é a minha alegria de viver. E isso inclui cuidar de mim.

A pele nova chegou alguns meses depois do parto e hoje encobre meu corpo plenamente. Agora com um pequeno retoque: uma tatuagem de balão na nuca que marca a presença do meu filho na minha existência. O balão que vai carregá-lo pra sempre dentro de mim.

Essa pele nova me transformou numa mulher com mais energia, mais força, mais vitalidade. Olhar pro meu filho é ver a realização de um sonho. É perceber no olhar dele pra mim uma admiração, um encantamento. A recíproca é verdadeira, meu filho.

O que eu fui fazer da minha vida? Hoje já sei: um bebê risonho, feliz e DELICIOSO. Que é a mais pura alegria.

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3 comentários sobre “Carne viva

  1. Ju, esse desabafo é na verdade um texto real. Da vida real. De uma mãe real. Obrigada por dividir de forma tão honesta e verdadeira tantos sentimentos difíceis de serem compartilhados. Por isso te amo nêga loira!!!!

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  2. Lindo o texto e como me identifico com ele! Também sempre pensei assim: eu não tenho que me anular, se eu estiver feliz fazendo o que gosto, eu farei felizes os que estiverem ao meu lado, marido, filhos e netos! Parabéns, mamães! Cada texto que eu leio, tem um pouquinho de mim! Vocês são demais! Beijos a todas essas escritoras incríveis!

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