Do medo do parto ao amor por parir

  
Há quase dois anos e meio penso em escrever um relato do meu primeiro parto. Me parece que toda mulher que teve parto normal já escreveu um, menos eu. 

Já tive até um título na cabeça: “E não me venha falar sobre partos”. O motivo do título talvez explique por que nunca escrevi o relato… Não queria entrar na polêmica discussão do que é melhor, a cesárea ou o normal. Me cansam as defensoras xiitas de ambos os lados. E espero não ter me tornado uma!

Foi quando vi o meu obstetra na tv, defendendo o parto normal sem radicalismo, que veio a decisão e o título desse texto. Era um papo sobre as novas regras para tentar diminuir o número de cesáreas geralmente impostas pelos médicos de planos de saúde. Como disse o Dr Bruno Alencar no Encontro com Fátima Bernardes, muitas mulheres optam pela cesariana porque têm medo do parto normal (e porque são mal orientadas). Eu sempre tive medo. E o tema nunca me interessou, até que engravidei. 

Logo no início da gestação, uma colega de trabalho me falou de um site chamado Nascer sorrindo, de um grupo defensor do parto humanizado. Lembro exatamente as minhas palavras: “o que importa pra mim é que o bebê nasça. Não importa como. Humanizado é nascer com saúde.” Ok, não foram exatamente estas as palavras mas lembro que foi isso o que pensei. 

(Nascer sorrindo é um livro de um obstetra francês muito conhecido, o Frederic Leboyer. O mesmo que difundiu a Shantala. Devo estar falando sânscrito pra quem não teve filho ainda, mas recomendo a pesquisa pra quem estiver pensando no assunto).  

O fato é que sempre tive muito medo do parto. Provavelmente influenciada por aquelas cenas de novelas e filmes onde as mulheres aparecem uivando suando xingando sangrando morrendo… E ainda hoje seguem representando nascimentos assim!

Quando minha irmã teve meu sobrinho “cuspido” num parto normal em que ela dormiu durante as contrações (!), passei a considerar tal experiência. Havia encontrado a esperança! Mas lembro que disse para a minha médica logo na primeira consulta: “quero normal enquanto estiver tudo normal, não tenho problemas em fazer cesariana”. 

Aí a natureza sábia me fez esperar nove meses e neste tempo li muito, ouvi relatos (!), fiz cursinho e tudo. Tive certeza de que queria a experiência rara da minha irmã de fazer três forcinhas e parir já querendo ter o segundo filho. 

Passaram-se 38 semanas e cinco dias até que perdi o tampão, a bolsa estourou numa pizzaria e numa madrugada chuvosa de janeiro passei umas cinco horas tendo contrações… e tentando dormir. Era menos doloroso – e dolorido – do que eu tinha imaginado. 

Sorri por meu filho ter nascido com saúde – e na terceira força! Mas sofri com a ocitocina (aplicada para acelerar a dilatação) e com a episiotomia (corte responsável por um pós parto traumático). Quando engravidei do segundo filho, fui em busca do verdadeiro parto humanizado. Não queria as tais intervenções, que descobri serem consideradas por muitos uma violência obstétrica. 

Conversei com médicos ditos humanizados. O que defende que parir de cócoras é a melhor forma de parir. A que defende o parto na água. O que não defende a anestesia. Descobri que não sou tão humana assim!

Uma das médicas que procurei chegou a dizer que não saberia sequer fazer uma “epísio” se fosse preciso, “já que não se usa essa técnica há muitos anos”. Mas, e se fosse preciso? Fiquei com essa pulga atrás da orelha. Sorte que ela não tinha tempo pra mim. Num email em que lhe contei estar com 16 semanas de gestação, sem os exames necessários, com a intenção de parir com ela, mas sem conseguir marcar uma segunda consulta, recebi a resposta: “infelizmente não temos horários compatíveis para o atendimento. Boa sorte”. Isso é humanizado? 

Foi aí que encontrei o Dr Bruno. Indicado (e aclamado!) por uma antiga colega de trabalho que teve dois partos normais, e que estava atendendo (e agradando!) uma outra amiga do trabalho, exigente e cheia de dúvidas. 

Ele fala o que eu penso. O parto normal é a melhor opção pra mãe e pro bebê. Se não tiver como ser normal, depois de todas as possíveis tentativas, não há problema em realizar uma cesariana. Cesarianas salvam vidas. Fico feliz de não ter precisado de uma. 

E assim foi meu segundo parto, com 40 semanas exatas de gestação: meu filho nasceu duas horas depois que dei entrada no hospital. Senti dor antes, com as contrações, mas nenhuma depois. Mal fiz força e o bebê saiu. (Mesmo estando com o cordão enrolado no pescoço, não foi preciso uma cirurgia!) Não levei ponto. Não senti dor. Não tive trauma. Deixei o hospital 24h depois do parto. E sorrio todos os dias desde então. 

Já me chamaram de parideira. Não sei se é pra tanto. Fiz questão – na verdade, implorei – por anestesia nos meus dois partos. Não seria tão fácil sem ela! Senti duas vezes a contração fortíssima provocada pela aplicação da ocitocina sintética. No primeiro parto eu pensava: “se tiver um segundo filho, farei cesariana”. No segundo parto, pensei: “por que não optei pela cesariana?!” É um pensamento que dá e passa. Assim como as dores no útero. Basta pegar seu bebê no colo ainda quentinho recém saído de você, botar ele no peito, sentir o olho no olho, limpar um pouquinho a pele dele com seus próprios dedos, ver o cordão sendo cortado e não vê-lo sendo aspirado – quase torturado – levado de você. Um amor que se revela ao parir. 

Não passarei por isso de novo. Não pretendo ter outro filho. Mas se tivesse, faria tudo outra vez. Normal outra vez. Com ou sem ocitocina e, sem dúvida, com anestesia. E certamente com esse mesmo obstetra que me ensinou que humanizado é o tratamento que médico e paciente devem ter ao longo de toda a gestação, no parto e no pós parto. 

Aprendi que só é preciso amor pra nascer sorrindo. E pra parir também.  

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